Publicado por: Daniel | Outubro 10, 2008

Uma Jornada Para Elysium – Parte 8: Insólito Mundo Velho

- 3 de Outubro de 1987 Anno Domini – 15h42:

“Fiquei praticamente quatro dias me recuperando desde que aquela tempestade ocorrerra. Lembro-me de alguns detalhes. Há três noites atrás, recordo-me de acordar no meio da chuva. Estava deitado na calçada da rua. Bem perto dali, o som da água batendo e fluindo através do paralelepípedos. Era um som agradável. Olhei fixamente para o céu e acompanhei por um instante o exército de gotas suicidas pularem das camadas densas e cinzentas que tomavam conta do céu. Algumas colidiram contra meu corpo mas eu não as senti, enquanto outras passaram através de mim e juntaram-se às suas irmãs, rolando da calçada para o meio-fio da rua. Do alto de uma árvore, um gato curioso e ao mesmo tempo assustado pela tempestade ou de mim, ou ambos, deu um miado prolongado e buscou abrigo na copa. Fiquei contemplando aquela cena por um momento. Eis que eu percebi que eu não poderia ficar ali por muito tempo. Tentei ficar de pé, mas eu estava esgotado. Então, literalmente, fui me arrastando na calçada até o final da rua, torcendo para que ninguém me encontrasse. Eu tinha que me esconder em algum lugar enquanto eu tivesse forças para me mexer. Algum lugar isolado. Por sorte, a solução não demorou a vir. Havia um supermercado de porte médio do outro lado da rua. Esgueirando-me no asfalto, olhei para os dois lados para ter certeza que não haveriam testemunhas. Felizmente a tempestade era intensa eu não havia mais uma viva alma na rua. Exceto eu.  Arrastando-me com dificuldade cheguei ao outro lado da rua. Comecei examinar o local. Fui em direção aos fundos do supermercado aonde havia um depósito. Era o que eu precisava. No portão de entrada completamente enferrugado pela falta de uso, havia uma placa grande escrito ‘Não estacione. Sujeito à guincho!’. Com o que sobrou das minhas forças me concentrei e atravessei o portão. Uma paisagem pitoresca. Muitas caixas, poeira e algumas teias de aranha em volta. Perfeito! Era sinal que não havia movimento de ninguém naquele setor do depósito. Mergulhei em sono profundo. Sem sonhos. Estava completamente inanimado. Acordei rapidamente durante a noite do dia 2. Lembro de erguer a cabeça e verificar que não havia ninguém. Em seguida voltei a dormir. Mas eu conseguira. Eu estava de volta.”

- 5 de Outubro de 1987 Anno Domini – 00h07:

“Hoje me sinto melhor, quase recuperado. Aproveitei para dar uma volta para me situar direito e pensar no que eu deveria fazer adiante. Atravessei o portão enferrujado e resolvi dar uma caminhada pelo bairro. As árvores me fizeram companhia nesta noite. Um vento suave percorria as ruas. Reparei nisto porque de tempos em tempos uma folha de árvore teimava em acompanhar meus passos, embora eu não pudesse sentir nenhuma brisa no meu rosto. Comecei a pensar. Uma sensação aparente dormente, que eu achava que fosse em virtude do cansaço da transição entre os dois planos, começou a ficar mais evidente. E era estranho. Era como se eu voltasse para o meu mundo. Mas ao mesmo tempo não era ele. Como isto era possível? Havia algo de diferente. Sem lembranças em que me apoiar, não conseguia afirmar o que era diferente. Apenas sabia que eu não voltei exatamente para o mundo da qual eu fui tirado. Talvez, afinal, o Rio do Esquecimento não tenha sido tão bem sucedido em retirar todas as minhas memórias. Algo ficou, mas de nada adianta se eu não sei o que é! De repente, escutei um barulho. Era alguém que vinha ao longe, com passos vagarosos e pesados. Conforme a distãncia foi diminuindo, percebi que era um homem e ele estava cantando. O que vinha da boca dele era mais ou menos assim: ‘Se o desgosto o acomete, não se contente como o que o futuro possa lhe oferecer/Saia em busca das respostas agora, não deixes para depois/Pois se esperar demais, o futuro vira presente e a verdade não há de mudar’. Não consegui ouvir mais porque meus passos eram muito mais rápidos do que os dele, eu a última coisa que aquele senhor precisava era de um susto com a minha presença. Rapidamente atravessei novamente o portão do depósito. No restante da noite pus-me a pensar se havia alguma sapiência nas palavras daquele homem. Quando me dei por conta, estava eu cantarolando o que consiguira ouvir, tamborilando meus dedos numa caixa de papelão. E dali não saí mais.”

- 6 de Outubro de 1987 Anno Domini – 04h46:

“Ontem ainda me surgiu a idéia do que fazer. E pensar que o que é para muitos um problema, para mim é uma solução. O conselho contudente da carta que eu lera, não deixava nenhuma dúvida: eu precisava de uma criança com problemas de hiperatividade. Caso contrário, eu estaria colocando a vida dela em risco. Nesta noite um invadi um hospital durante a madrugada. Os seguranças não detectaram minha presença. Havia uma sala que servia de arquivo temporário para consultas há mais de 2 anos. E aparentemente ninguém circulava por ali, inclusive em quase toda aquela ala do hospital não havia quase nenhuma movimentação. Muito de vez em quando eu ouvia passos de alguém. Fiquei horas ali lendo as consultas. Primeiro separei as consultas das crianças dos demais. Depois, nas que sobraram, tentei reconhecer nas letras garranchudas que todo bom médico para apreciar fazer, aquelas que abordavam como sintomas, agitação demasiada, desinteresse constante, enfim, algo asssociado à hiperatividade. Encontrei 13 registros! Enrolei os papéis cuidadosamente e os trouxe comigo. Estou foleando eles agora. Treze crianças. Minha esperança pode estar em uma delas…”

CONTINUA…

Publicado por: Daniel | Setembro 20, 2008

E quando a hora chegar…

Se algo em meu sono perturbar
como fantasmas dançando em volta da cama
e meu repouso não conseguir reconciliar
São meus problemas que voltam a me importunar
Aparentemente sem solução eles passam a me provocar
Acumulados de tal forma que as cláusulas de causa/efeito não se aplicam mais
e assustado com a forma na qual o destino possa se desenrolar
Penso que meu único alento é que…
quando a hora chegar…
Mesmo com os olhos mareados
Mesmo derrubado pelas tormentas da vida
Por mais amarga que uma solução possa se apresentar
Quando todos os olhos em mim repousar
Ter a certeza de que…
Eu não hei de falhar
Com minhas próprias forças irei levantar
Recolher o que eu deixei cair
E minha jornada continuar
Se a escuridão em mim se apoderar
Que eu saiba que neste caminho eu não posso me guiar
E se a trilha já existir…
Com meus passos espero as antigas apagar
E quando a hora chegar…
E o medo em mim se manisfestar
Que ele não vá embora enquanto a solução não encontrar
Pois em tudo que tememos existe uma maneira de ser e estar
E, portanto, mais uma motivação para lutar
Que minha consciência continue firme
Para que minhas mãos não possam titubear
E quando a hora chegar…
Com todos os impecílios à minha porta me perturbar
Que minha sabedoria guie minha direção
A decisão certa a tomar…
E mesmo que pela minha face minhas lágrimas derramarem
Mesmo que minha voz fique fraca por insistir tanto em exclamar
Quando a hora chegar…
Minha força de vontade irá me confortar
Quando tudo depender de mim e
uma resolução tiver que adotar…
Abraçando a esperança que tudo no último instante pode mudar
E acreditando a paz finalmente alcançar
Ter a certeza de que…
Eu não hei de falhar…

Publicado por: Daniel | Setembro 4, 2008

Uma Jornada Para Elysium – Parte 7: Turbulência

Mergulhei para dentro do redemoinho. E não foi uma surpresa quando constatei o quão difícil seria ir contra o sentido da corrente. A força da mesma era muito maior do que qualquer esforço que eu fizesse. Caso eu parasse por um instante que fosse, parte do trajeto era desfeito e eu voltava para mais perto do ponto de origem. Eu não podia parar… Estava um bom tempo ali e ganhara apenas alguns metros de profundidade. Qual seria a extensão daquilo? Quanto eu teria de evoluir até chegar ao meu destino? Não queria arriscar qualquer palpite, mas meus pensamentos teimavam em dizer que a travessia seria extenuante. E demorada… Após alguns metros percorridos as paredes do redemoinho estreitaram e a força de empuxo aumentou. Estava mais difícil ainda seguir adiante. Deste ponto em diante toda a matéria ficou em constante agitação e meu corpo chacoalhava de um lado para outro, como uma turbulência. Uni meu corpo, braços e pernas juntos ao corpo e com o movimento dos pés, e pus-me a mergulhar cada vez mais fundo. Mas o progresso era lento. Enquanto conquistava metro a metro, pensei, “por que estava fazendo aquilo?”. Qual era a minha real motivação? Além dos meus sentimentos anteriores servindo como um incentivo inicial a esta experiência, peguei minha mente pensando em torno da seguinte frase: “compreender a razão e o significado da vida”, dita na primeira conversa pelo meu suposto tutor. Como assim eu não sei? De fato não sabia. Mas afinal, quem sabe? Se eu perguntasse para uma pessoa se ela sabe o motivo pela qual ela vive, o que ela diria? Talvez nem ela soubesse. Provavelmente, quero dizer. É uma pergunta difícil, destas que tu é capaz de viver toda a tua vida sem que alguém a faça. Seja como for, na minha antiga vida, da qual eu não me lembrava mais, eu não descobri. Era isto que eu precisava descobrir…e continuei indo para baixo, lentamente…

Eu estava ficando fraco. Já tinha perdido a noção do tempo. Olhava adiante mas não visualizava a saída. Eu devia estar longe dela. Então começou uma sensação de ardência. Em poucos minutos aquilo virou pura e simples dor. Uma dor excruciante. Acelerei meus movimentos para tentar escapar daquela sensação, sem grande efeito. Fui ficando mais fraco e lutando para não perder em pensamentos. Minha energia estava sendo drenada pelo redemoinho. Era isso. Se não bastasse a dificuldade cada vez maior em prosseguir e meu desgaste natural, a dor e uma fraqueza crescente não me deixavam sossegado. Entrei em pânico. Não sabia mais o que fazer. Se desistia e deixava a corrente me levar ou continuava. Não conseguia pensar mais. Mas no fundo eu sabia que tinha de prosseguir. Não podia jogar tudo para o alto agora. Não ainda. Não me entregaria enquanto ainda houvesse o mínimo de força para continuar.

Eis que em meio a dor me veio uma idéia. E se eu tentasse exercitar aquele fundamento de me atravessar os objetos como eu fiz com a árvore? Por mais que eu desconhesse do que era composto o redemoinho, tinha de ser alguma matéria em comum entre os dois planos já que o canal interligava a ambos. Mas para fazer aquilo acontecer, eu tinha de clarear as idéias e tentar pensar em nada. Eu tinha de ignorar a dor. Tentei cessar meus pensamentos e a dor. Demorou algum tempo, mas de certo modo, o fato de ficar cada vez mais fraco reforçou minha concentração de forma que eu entrei numa espécie de transe. E de fato comecei a me locomover mais rápido. Devo ter percorrido um bom trajeto quando eu senti que a dor passara. Porém, um problema pior apareceu…

Comecei a sentir algo diferente. Era uma angústia, no início. Depois medo e, por fim, horror. Mas aqueles sentimentos não eram meus. Não pertenciam a mim. Não é preciso dizer que minha concentração findou-se com a chegada destas sensações. Novamente estava me movendo devagar. Demorou um tempo até eu encontrar a razão daquilo tudo. Aquela gama de sentimentos eram resquícios de sentimentos daqueles que morreram. Agonia. Medo. Aflição. Tristeza. Terror. Visões me vieram à mente. Um homem estava com uma arma na mão e um sorriso sombrio nos lábios. No instante seguinte a arma disparou e ouvi um grito lancinante preenchendo o espaço. Outra visão. De repente estava em uma cama de hospital, várias pessoas estavam ao redor. Uma garotinha se aproxima de mim, agarra meu braço e diz: “Vovó, por favor, fica!”. Os demais presentes viram-se de costas para criança para que ela não perceba suas reações, porém eles não conseguem esconder o choro. Senti uma tristeza profunda e depois um vazio… E outras visões semelhantes não paravam de chegar.

Aquilo era demais pra mim! Era pior que a dor… eu não consegui pensar em nada… era muita coisa para armezenar. Já não haviam mais forças. “Eu não vou conseguir”, pensei. Se alguém estivesse ali, poderia ouvir através de um murmúrio, este pensamento em voz alta… “eu não vou conseguir”. Depois, perdi a consciência…

CONTINUA…

TRECHO DO JORNAL LOCAL – DATA: 31 de setembro de 1987 Anno Domini

Publicado por: Daniel | Agosto 29, 2008

Resposta

Quando vemos algo à nossa frente
que se repete como voltas de um eterno carrousel
E, mesmo assim, percebemos que alguma coisa foge aos nossos sentidos…
Se algo está acontecendo e assume contornos definidos,
estabelecendo um padrão, então
por que não identificamos o que se passa à nossa volta?

A Resposta está no que se observa…
Quando não olhamos para o objeto certo,
ficamos presos apenas por aquilo que desejamos enxergar
Se algo não te der uma resposta, desvie o olhar e
repare em outro detalhe que compõe o cenário
Talvez esteja lá o que você realmente procura saber…

Surge uma situação
onde existem alternativas que
não são boas, nem ruins…
Nenhuma solução é totalmente certa, nem totalmente errada
E todo pró vem acompanhado de um contra, um revés…
Se as idéias tornam-se difusas e a mente cega,
como desvencilhar deste impasse, como malograr este dilema?

A Resposta está no que se pensa…
Avaliamos nossa consciência apenas baseada
na própria experiência e quando surge o desconhecido
nossa virtude de escolher se esvai pela incompreensão de
nossa racionalidade…
Busque sua resposta no raciocínio e na lógica dos demais
Não se sinta frustrado por não saber resolver sozinho um problema…
Afinal somos todos eternos aprendizes
e existem caminhos do conhecimento que
já foram trilhados por outros para que
tu precises construir o teu próprio….

A percepção de nossa realidade é balizada
pelas nossas emoções, sentimentos…
Visões compartilhadas por nossos semelhantes
possuem interpretações divergentes onde cada um
carrega uma pré-condição sentimental antes de decretar uma opinião
No entanto as vezes nem nós mesmos nos entendemos,
não conseguimos decifrar nossas emoções…
Como reagir àquilo que parece ilegível?

A Resposta está no que se sente…
Pare por um instante para identificar
qual é o sentimento dominante…
Consulte seu coração, mentor das tuas angústias e desejos…
Depois observe se a intensidade daquilo que você sente está
de acordo com o momento, sem exageros, sem omissões…
E, por fim, só aja se seu coração estiver em comunhão com sua mente,
sua consciência, para evitar futuros
arrependimentos e lamentações…

Estava escuro. Acordei. E estava escuro. Será que sonhei tudo aquilo? Mas se era um sonho, por que não estava na minha cama? Não… aquilo não era a minha cama, assim como também não estava em nenhum lugar conhecido. Mas eu conhecia alguma coisa? Eu não me lembro de nada… eu não sei quem eu sou. Meu nome? Nenhum. Da onde eu vim? Sem resposta… Minhas lembranças começam comigo preso num cubo escuro. Me lembro da Voz… das experiências pelas quais passei. Há quanto tempo eu estou dormindo? Mas aquilo não era um cubo. E nem estava mais tão escuro. Tentei me levantar do chão, tateando uma parede. Era uma parede rochosa. Eu estava numa caverna…

Ao longe vislumbrei uma luz fraca bruxelante. Estalactites emolduravam o teto daquilo que parecia um longo túnel rochoso. Foi preciso andar durante um bom tempo me apoiando nas paredes até conseguir me orientar apenas pela luz. Ela foi ficando mais forte até ela me revelou o meu destino final: uma clareira de formato circular. Dentro dela foi preciso me equilibrar porque havia uma estreita borda aonde podia pisar… o resto era um burraco. A luz vinha de dentro dele. Olhei brevemente sempre segurando nas paredes da caverna para ver da onde provinha aquela luz. O que eu enxerguei foi estarrecedor: era uma espécie de redemoinho gigantesco, só que onde deveria ter água, havia ondas de luzes alvas e cintilantes. Rapidamente me afastei para a entrada da clareira. Sentei, esperando algo acontecer. Nada. As vezes olhava para o redemoinho esperando que alguém fosse sair daqui… será que eu tinha que tirar alguém dali? Salvar alguém? Mas não apareceu ninguém. Ao menos imaginei que ouvira a Voz do meu amigo daquele lugar tão insólito. O tempo foi passando e nada aconteceu. Minha paciência estava sendo minada, pensei… “tenho que esperar”, conclui. Nisto notei que uma espécie de pergaminho descansava no chão, perto da onde eu estava. Peguei-o e desenrolei a fita que prendia o papel. Nele continha o seguinte:


Saudações…

Após um demorado período de reflexão, tomei por esta iniciativa de lhe escrever como sendo a mais sensata para detalhar algumas explanações que desejo lhe transmitir. Gostaria que tu apreciasse a idéia de que esta experiência é tão inédita para nós quanto para você. Estamos apreensivos quanto à conclusão desta tua missão e pelas coisas das quais tu terás que passar. Gostaria que soubesse que se houvesse outra forma de contornamos seu problema, adotaríamos com certeza. No entanto, julgamos esta como sendo a única. Temos empatia por todas as formas de existência em suas mais variadas formas. Com este intuito, propusemos esta solução como necessária julgando a preservação de sua existência. Caso contrário não teríamos outra hipótese senão a sua total extinção através da Cápsula da Existência. Após estar familiarizado com o tipo e tom das tuas perguntas, farei o possível para explicar todo o contexto da tua situação. Antecipando sua pergunta que por ventura tu terias acerca da Cápsula da Existência… A Cápsula da Existência é o lugar da onde nossa espécie desperta nossa consciência. Em seus termos, é onde nascemos, da onde viemos. Explico isto pois suponho que tu venha ter dúvidas tais como: “Como assim, da onde você vem?”. Em seu plano de existência somos chamados de espíritos. É pressuposto afirmar que em cada ser gerado em seu plano carrega um de nós por determinado tempo daquilo que vocês determinam como vida. Pelo seu padrão de lógica a próxima pergunta seria mais ou menos esta: “Se de alguma forma vocês nos criaram, então quem criou vocês?” Pois bem, eis aí que entra a Cápsula do Existência. Somos concebidos randomicamente por várias varíaveis que compõem os planos da Existência. Algo realmente complicado de explicar que não se aplica no seu caso saber. A Cápsula possui dupla funcionalidade pois se ela é capaz de “criar” uma consciência, ela possui a capacidade de tirá-la também. E este poderá ser seu destino caso está missão não seja bem sucedida. Não seria correto esconder estes detalhes de você. Vamos aos outros detalhes…

Voltando ao seu plano, tu terás que escolher um indivíduo que queira compartilhar a existência dele com a sua. É imperativo que ele concorde, caso contrário a unificação não terá êxito. Enfaticamente reforçamos a idéia que busque alguém jovem, de preferência uma criança, pois suas chances adaptação serão as melhores possíveis. Com individuos desenvolvidos há uma grande chance de tu não te acostumares pois não teria tempo de aprendizado suficiente, inclusive resultando uma rejeição ao corpo. Mas chamamos atenção para um detalhe: não poderá ser qualquer criança. Tens que buscar contato com alguma que tenha um excesso de energia corpórea, caso contrário, a convivência de duas existências drenaria completamente a energia corpórea, impossibilitando qualquer movimento. Vocês chamam esta característica de hiperativismo. Um ser jovem “hiperativo” pode comportar a sua união de forma a não afetar nenhuma faculdade psicomotora. Não é necessario explicar que o hiperativismo irá desaparecer graduamente e será sentida por todos que convivem com a criança. Esteja ciente para contornar este fato. Também não é preciso salientar que tu serás diretamente responsável pela conduta deste Ser já que ele irá escutá-lo e de alguma forma tu irás influenciá-lo. Estaremos monitorando tua situação durante todo o tempo que tu permaneceres nesse plano. Quando nós concluirmos que sua missão acabou, retomaremos todos os procedimetos usuais esperando desta vez que o julgamento de suas ações indique um caminho a seguir. Tu terás um tempo para encontrar um ser compatível para que sua missão se concretize. Estimamos mais ou menos um mês em seu plano. Depois disso, tu não terás mais energia para continuar, enfim, irás perecer. Enfraquecemos muito facilmente em seu plano de existência.

O que você vê a frente…. trata-se do Vórtex Dimensional. Quando sua existência no seu plano se extingue, abre-se uma passagem por onde o Ser encontra o caminho através do Vórtex. Geralmente o recebemos aonde você está agora. Contudo, este canal de comunicação entre os planos é unidirecional, ou seja, apenas do seu plano de origem para o nosso. Muito poucos foram os que conseguiram fazer o caminho inverso. A energia é drenada por ter de ir ao sentido oposto, o que torna realmente improvável o Ser completar o percurso. Por isso entenderemos se tu não quiseres ter de passar por uma experiência aonde as chances de sucesso são muito reduzidas e, para poupar qualquer sofrimento, enfrentar a extinção imediata através da Cápsula da Existência. A escolha é sua… Caso não aceite a missão, retorne pelo caminho que fizeste até aqui.
Desejamos o melhor a você.

Boa Sorte.

“Então era isto”, pensei. Uma experiência de improvável sucesso ou extinção imediata. Eu que já não possuia nem ao menos uma identidade, onde tudo me fora tirado, sobraram apenas um punhado de sentimentos. Porém estes sentimentos me incomodavam. Eles clamavam por uma chance. Uma chance de ser julgado, uma chance entender as coisas. Uma chance de querer Ser alguém, de ter alguma consciência, de fazer alguma diferença para alguém. Não queria perder o direito de poder assistir o mundo com meus próprios olhos e eventualmente participar dele…

No instante que este pensamento veio à mente, meus pés não tocavam mais o sólido piso rochoso da caverna.
Eu saltara para dentro do redemoinho…

CONTINUA

Estava esgotado. Minhas forças estavam me abandonando… Tudo girava, em um efeito que parecia uma catatonia. Cansado, perguntei:

- Podemos ir embora? Sinto-me fraco.
- Entendo que exigi um pouco demais de você – respondeu a Voz. Para quem não está familiarizado com esta habilidade, é necessário utilizar uma força acima do normal, mas com o tempo tu irás conseguir realizar a mesma tarefa com menor esfoço energético. Querendo ou não, agora você é apenas uma forma de energia. Cada movimento realizado exige uma quantidade de energia a ser empregada. Mas infelizmente me oponho à sua partida. É necessária a sua permanência para a prática de mais um fundamento.
- Mais um? – falei desoladamente.
- Sim, mas este exige menos esforço. Fiz questão de ensinar o fundamento que exige mais recursos primeiro. Não pediria para continuar se pensasse que tu não pudesse continuar. Confies em mim.
- Está bem. E qual seria a tarefa? – perguntei.
- Atravesse a árvore.
- Como assim? – indaguei.
- Passe através dela – revelou a Voz.
- Ah, isso deve ser fácil…

Fui em direção à árvore. Fechei os olhos. E num único impulso me joguei pra frente. Então algo curioso aconteceu… Quem estivesse vendo de fora poderia até dar uma risada. Meus dois braços e uma perna saíram do outro lado, entretanto, meu rosto, o tórax e a outra perna ficaram presos.

- Consegue voltar para a posição original? – perguntou a Voz.
- Acho que sim.

Dei um passo para trás e por uma questão de sorte consegui sair da árvore. Mas logo vi que o que parecia fácil não era algo tão trivial.

- Ok, hora da aula teórica. Por acaso vocês devem ter um nome pomposo para o que tu está pedindo para eu fazer, certo? – perguntei com uma pontinha de ironia.
- Chamamos de Dissolução Proativa.
- Eu adoro estes nomes… mas como que eu consegui atravessar a maçã? – perguntei curiosamente, sabendo que meu sábio tutor deveria ter uma resposta já preparada.
- Corpos com volumes pequenos são fáceis de atravessar, já corpos com grandes volumes exigem disciplina e treino.
- O que é necessário que eu saiba então?
- Ao contrário do outro fundamento, neste é imperativo que tu limpes a mente. Não penses em nada. Exige concentração, porém não é necessário acumular muita energia. Concentre-se.
- Vou tentar – respondi de forma decidida.

Mas como não pensar em nada? Eu tinha muitas perguntas que eu gostaria de fazer. Estava naquele local não querendo estar, supostamente morto, então muita coisa me inquietava. Mas também sabia que enquanto aquele exercício não acabasse eu não teria descanso. Limpar a mente… sem dúvida era mais fácil falar do que realizar – pensei comigo mesmo. Pensar em não pensar nada… Então adotei uma abordagem. Se para cada pergunta eu obtivesse uma resposta, e por mais esdrúxula que ela fosse, eu desse por encerrado a questão e partisse para a próxima. Em algum momento as perguntas cessariam e não sobraria nada em que pensar. E este era o objetivo. Então comecei a pensar… Passou algum tempo. Realmente em um dado momento não me ocorria mais o que perguntar e eu aproveitei a chance. “Agora é a hora”, pensei. Fechei os olhos e caminhei em direção à árvore. Ao abrir os olhos eu estava do outro lado.

- Parabéns – felicitou a Voz. Você está pronto. Terás teu merecido repouso. Teremos apenas mais um encontro antes do seu retorno ao seu plano  de existência. Existem explicações adicionais que eu desejo lhe transmitir. Contudo, não há mais ensinamentos. Você sabe tudo o que precisa saber. Tão logo tu te sintas recuperado, você partirá. Agora, durma.

Minha consciência ficou torpe… já conhecia aquela sensação. Desta vez não relutei e cai em sono profundo.

CONTINUA…

Publicado por: Daniel | Julho 29, 2008

Se Ao Menos Durasse Um Pouco Mais…

No deleite do corriqueiro
nos questionamos muito pouco sobre o porquê das coisas
Que se temos algo hoje
provavelmente teremos amanhã também
Mas a imutabilidade é ilusória, pois…

Se os fatos doem, as palavras não deixam mentir
Quando sentimos falta daquilo que tínhamos
Quando o supérfluo se torna inédito
queremos correr atrás de algo que é mais rápido do que nós…
As pernas cansam, mas a mente ansia
para recuperar algo perdido…
Não culpamos o tempo, apenas imaginamos…
Se ao menos durasse um pouco mais…

Nada na vida é uma constante,
mas é finita
Pois tudo que tem um fim acena com um signficado
Quando algo acaba, podemos finalmente
empregar corretamente os verbos no passado, presente e futuro…
E com isso temos de nos conformar, pois..

Quando sentimos que o tempo está acabando, pensamos…
Que se nada dura eternamente, por que demoramos tanto para perceber?
Por que valorizar algo apenas quando estamos prestes a perder?
Pois nada da qual perdemos ganharemos novamente da mesma forma como antes
Se pudéssemos repaginar as folhas do tempo…
Se ao menos durasse um pouco mais…

Perdido na ciranda do tempo,
com todas as memórias sendo consumidas
com a velocidade que tornam as imagens um borrão desconexo
Como se mal conseguíssemos tocá-las com as pontas dos dedos…
Quando tudo significou algo
mas que passou tão depressa
que temos medo que se tornem apenas simples lembranças
jogadas no calabouço do esquecimento
Se ao menos durasse um pouco mais…Se ao menos durasse um pouco mais…

O tempo…

Se ao menos durasse um pouco mais…
Talvez faríamos as coisas de um modo diferente
Se ao menos durasse um pouco mais…
Sem meras palavras jogadas ao vento
Se ao menos durasse um pouco mais…
Menos perguntas, mais respostas
Se ao menos durasse um pouco mais…
Para iluminar os pensamentos
Se ao menos durasse um pouco mais…
Para enxergar que a vida te oportuniza
o direito de ter lembranças
Se ao menos durasse um pouco mais…
Para perceber que o dia que passou
não foi subtraído da sua existência,
mas que lhe foi permitido viver mais um

A Necessidade de Ser Compreendido… Este poderia ser o novo slogan para este século. É um objeto de desejo de todos nós. É o que esperamos encontrar quando olhamos nos olhos de alguém. Compreensão… Nunca o mundo como um todo buscou tanto por essa palavra como agora. Ela é preciosa porque, além de não ser algo que é visto a olho nu e muito menos sentí-lo através de um toque, é algo que podemos doar, mas nem sempre receber em contrapartida. Não está à venda no supermercado, nem na loja de conveniência mais próxima. É algo dado e recebido por pessoas. Mas afinal, o que seria compreensão?

Penso que compreensão não signfica aprovar/desaprovar algo, mas admitir que hajam elementos que sustentem o porquê de tal pessoa escolher tal caminho, tal direção e, neste caso, dizer que a entende. Ao mesmo passo que não queremos ser julgados por nada que tenhamos feito, queremos que as pessoas entendam e por fim, compreendam a razão das coisas. Como experimentamos várias situações durante a vida, muitas delas inéditas, é difícil as vezes determinar qual seria a melhor maneira de agir. Ainda mais quando nenhuma é claramente certa ou errada. Neste caso a compreensão coletiva advinda das pessoas importantes para nós cria uma atmosfera de “certeza”, que certifique, que garanta que estejamos fazendo as coisas da maneira correta. O fato é que somos movidos por opiniões, elas nos influenciam querendo ou não.

Somos criaturas que dependem desesperadamente por compreensão porque ela possibilita uma ligação entre o avaliado e o avaliador. Aquele que compreende está afirmando que entende a situação. E isto é precioso demais. Existe uma identificação hipotética entre duas pessoas. Afinal, a maioria não imagina, não consegue conceber o cenário que fez com que determinado indivíduo agisse daquela forma. Quando uma pessoa introjeta a história de outro na sua própria vida e diz que a entende, assume-se que essa pessoa possua certa similaridade contigo, pois ela compartilha da tua lógica, embora não necessariamente a sua decisão. E, acredite, é realmente difícil encontrar alguém que consiga esta “sintonia”.

Compreensão sempre foi uma necessidade do ser humano, neste século, e nos anteriores também. A diferença está na escassez de encontrá-la. É que ela está associada à outra palavra: tolerância. Esta última implica na primeira. Tolerância é algo rarefeito atualmente e isto afeta diretamente na nossa capacidade de compreender. As pessoas perdem a paciência por muito menos hoje do que no passado. Dizem que isto é em virtude da vida multitarefa, estressada da qual vivemos. Menos tempo, mais serviço. Acho que pode ser verdade, mas apenas em parte. A outra está na crescente habilidade através dos anos de criticar tudo e todos. Ninguém tenta entender o que outro está passando, apenas em colocar o “dedo na ferida” e dizer que o outro está errado. Quase nenhuma das críticas é construtiva. Todos somos alvos passíveis de ser julgados por qualquer coisa a qualquer momento, a tal ponto que se tornou algo leviano adotar esta prática. Simplesmente é mais fácil criticar do que compreender. O curioso é que todos esperamos ser compreendidos, mas não fazemos a menor questão de compreender alguém. A demanda é muito maior que a oferta…

Do jeito que a carruagem vai, parece que estamos tecnologicamente evoluindo e humanamente retrocedendo. Seres equipados com celulares que parecem mais chaveiros e toda a parafernália hi-tech, mas levando consigo a clava dos nossos ancestrais, onde vale mais a pena dar uma cacetada em alguém do que colocar a mão no ombro da outra pessoa e dizer: “Eu compreendo…”.

- Eu não sei mais o meu nome! – gritei.
- Infelizmente isto era necessário – respondeu a Voz. Como eu te disse antes, tu não pode ter mais nenhum vínculo com o teu passado. Mas, enfim, não podemos perder mais tempo. Sou responsável em instruí-lo em dois fundamentos básicos para que tu tenhas o mínimo de interatividade e controle no seu antigo plano de existência. Veremos o primeiro agora.
- Agora? – perguntei.
- Sim. Vá até aquela árvore a sua direita.

Realmente havia uma árvore. Mas eu não recordava dela, pois fazia parte do trajeto que eu fiz até a margem do rio. Era uma árvore robusta, com parte das raízes emergindo para fora da terra cor argila. Bem carregada de folhas num tom verde bem escuro, alguns galhos acompanhavam uma espécie de fruta que eu nunca tinha visto. Resolvi não perguntar da onde a árvore tinha saído. Caminhei até chegar na base da árvore que a distância parecia grande, entretanto, de perto não representava tanto assim. Então perguntei:

- E agora, o que eu tenho de fazer?
- Pegue uma fruta – respondeu a Voz.

Inclinei meu braço para alcançar a altura do galho mais próximo. Então minha mão tocou na fruta. E para minha surpresa ela atravessou a fruta, de forma que eu não consegui efetivamente pegá-la, muito menos puxá-la. Tentei várias vezes sem nenhum resultado positivo.

- Não consigo! – desabafei.
- Eu já imaginava – retrucou a Voz. Esta árvore é feita com o mesmo tipo de matéria existente em seu plano, diferentemente de todas as outras coisas ao seu redor, como a terra, a água do rio, a cadeira onde tu estavas sentado momentos atrás. Tu precisas desenvolver a habilidade de manipular objetos em seu mundo de origem para poder sobreviver aos primeiros dias no seu retorno. Esta habilidade é conhecida como foco projecional. Para exercê-la é necessário concentração. Olhe para suas mãos. Me diga, o que tu vê?
- Eu vejo minhas mãos, ora! – respondi.
- Mas não são – insistiu a Voz. Esta é apenas a tua auto-imagem residual, mas suas mãos não são mãos, o mesmo vale para os pés e todo o resto de teu corpo fictício. Mas com sua concentração, tu é capaz de projetar teu pensamento com toda a lembrança do que as mãos eram, as sensações, o toque dela nos objetos e com isso tu consegue parcialmente tornar a região mais densa ao ponto de emular sua mão realmente. Entendeu?
- Acho que sim.
- Então pegue a fruta. Concentre-se.
- Tentei me lembrar como eram sensações que eu sentia quando eu tocava em algo… e em direção à fruta. Por um instante a fruta se moveu mas em seguinte minha mão atravessou a fruta como outrora.
- Mais uma vez – ordenou a Voz.
- Me concentrei ainda mais. Olhei para minhas supostas mãos e tentei sentir o ar em volta. As sensações. As lembranças toques das várias superfícies como madeira, aço, veludo, couro, linho, suas texturas. Notei que as mãos ficaram menos translúcidas, um material mais espesso ficou concentrado na região.
- Tente pegar agora – falou a Voz com aprovação.

Mais uma vez estendi o braço em direção ao galho mais próximo, e sem perder minha meditação, finalmente consegui tocar na fruta com os dedos estando firmemente ao redor dela. Puxei-a.

- Meus parabéns! – exclamou a Voz. Mas tu tens de treinar mais. Muito mais. Tente pegar mais frutas, até que eu ache teu desempenho satisfatório.
- Tudo bem.

Meu teste cessou apenas quando não havia nem mais uma fruta na árvore…

CONTINUA…

Publicado por: Daniel | Junho 25, 2008

Seja Meus Olhos Sob a Luz do Luar

Sinto uma névoa no ar
densa como a corrente dos pensamentos
Entorpecida pelas emoções
Com coisas que não consigo divisar
A alegria é tanta
que mal consigo me concentrar

Pois nesta noite, quando a vela apagar…
Se em meus sentimentos minha visão embaçar
e no teu calor eu me aconchegar,
Então seja meus olhos sob a luz do luar…

Confuso,
perdido em fatos que não consigo decifrar
Meus sentimentos se misturam
e eu não consigo me expressar…

Atormentado pelos meus fantasmas, quando a vela apagar,
espero a razão à minha mente regressar…
Nesta noite, compreenda minha situação
e com sua sabedoria faça meu discernimento voltar
Ainda que minha visão esteja obscurecida
Seja meus olhos sob a luz do luar…

De um inconsciente momento,
se imagens vierem à tona na minha mente
Com lembranças que machucam…
E surgir uma mágoa que não quer ceder o lugar…

Nesta noite, estarei sozinho…
Mas quando a vela apagar,
de qualquer forma espero ao meu lado você estar
Se minhas pálpebras umidecerem
e nada mais conseguir enxergar…
Então seja meus olhos sob a luz do luar…

« Novos Posts - Postagens Antigas »

Categorias