- 3 de Outubro de 1987 Anno Domini – 15h42:
“Fiquei praticamente quatro dias me recuperando desde que aquela tempestade ocorrerra. Lembro-me de alguns detalhes. Há três noites atrás, recordo-me de acordar no meio da chuva. Estava deitado na calçada da rua. Bem perto dali, o som da água batendo e fluindo através do paralelepípedos. Era um som agradável. Olhei fixamente para o céu e acompanhei por um instante o exército de gotas suicidas pularem das camadas densas e cinzentas que tomavam conta do céu. Algumas colidiram contra meu corpo mas eu não as senti, enquanto outras passaram através de mim e juntaram-se às suas irmãs, rolando da calçada para o meio-fio da rua. Do alto de uma árvore, um gato curioso e ao mesmo tempo assustado pela tempestade ou de mim, ou ambos, deu um miado prolongado e buscou abrigo na copa. Fiquei contemplando aquela cena por um momento. Eis que eu percebi que eu não poderia ficar ali por muito tempo. Tentei ficar de pé, mas eu estava esgotado. Então, literalmente, fui me arrastando na calçada até o final da rua, torcendo para que ninguém me encontrasse. Eu tinha que me esconder em algum lugar enquanto eu tivesse forças para me mexer. Algum lugar isolado. Por sorte, a solução não demorou a vir. Havia um supermercado de porte médio do outro lado da rua. Esgueirando-me no asfalto, olhei para os dois lados para ter certeza que não haveriam testemunhas. Felizmente a tempestade era intensa eu não havia mais uma viva alma na rua. Exceto eu. Arrastando-me com dificuldade cheguei ao outro lado da rua. Comecei examinar o local. Fui em direção aos fundos do supermercado aonde havia um depósito. Era o que eu precisava. No portão de entrada completamente enferrugado pela falta de uso, havia uma placa grande escrito ‘Não estacione. Sujeito à guincho!’. Com o que sobrou das minhas forças me concentrei e atravessei o portão. Uma paisagem pitoresca. Muitas caixas, poeira e algumas teias de aranha em volta. Perfeito! Era sinal que não havia movimento de ninguém naquele setor do depósito. Mergulhei em sono profundo. Sem sonhos. Estava completamente inanimado. Acordei rapidamente durante a noite do dia 2. Lembro de erguer a cabeça e verificar que não havia ninguém. Em seguida voltei a dormir. Mas eu conseguira. Eu estava de volta.”
- 5 de Outubro de 1987 Anno Domini – 00h07:
“Hoje me sinto melhor, quase recuperado. Aproveitei para dar uma volta para me situar direito e pensar no que eu deveria fazer adiante. Atravessei o portão enferrujado e resolvi dar uma caminhada pelo bairro. As árvores me fizeram companhia nesta noite. Um vento suave percorria as ruas. Reparei nisto porque de tempos em tempos uma folha de árvore teimava em acompanhar meus passos, embora eu não pudesse sentir nenhuma brisa no meu rosto. Comecei a pensar. Uma sensação aparente dormente, que eu achava que fosse em virtude do cansaço da transição entre os dois planos, começou a ficar mais evidente. E era estranho. Era como se eu voltasse para o meu mundo. Mas ao mesmo tempo não era ele. Como isto era possível? Havia algo de diferente. Sem lembranças em que me apoiar, não conseguia afirmar o que era diferente. Apenas sabia que eu não voltei exatamente para o mundo da qual eu fui tirado. Talvez, afinal, o Rio do Esquecimento não tenha sido tão bem sucedido em retirar todas as minhas memórias. Algo ficou, mas de nada adianta se eu não sei o que é! De repente, escutei um barulho. Era alguém que vinha ao longe, com passos vagarosos e pesados. Conforme a distãncia foi diminuindo, percebi que era um homem e ele estava cantando. O que vinha da boca dele era mais ou menos assim: ‘Se o desgosto o acomete, não se contente como o que o futuro possa lhe oferecer/Saia em busca das respostas agora, não deixes para depois/Pois se esperar demais, o futuro vira presente e a verdade não há de mudar’. Não consegui ouvir mais porque meus passos eram muito mais rápidos do que os dele, eu a última coisa que aquele senhor precisava era de um susto com a minha presença. Rapidamente atravessei novamente o portão do depósito. No restante da noite pus-me a pensar se havia alguma sapiência nas palavras daquele homem. Quando me dei por conta, estava eu cantarolando o que consiguira ouvir, tamborilando meus dedos numa caixa de papelão. E dali não saí mais.”
- 6 de Outubro de 1987 Anno Domini – 04h46:
“Ontem ainda me surgiu a idéia do que fazer. E pensar que o que é para muitos um problema, para mim é uma solução. O conselho contudente da carta que eu lera, não deixava nenhuma dúvida: eu precisava de uma criança com problemas de hiperatividade. Caso contrário, eu estaria colocando a vida dela em risco. Nesta noite um invadi um hospital durante a madrugada. Os seguranças não detectaram minha presença. Havia uma sala que servia de arquivo temporário para consultas há mais de 2 anos. E aparentemente ninguém circulava por ali, inclusive em quase toda aquela ala do hospital não havia quase nenhuma movimentação. Muito de vez em quando eu ouvia passos de alguém. Fiquei horas ali lendo as consultas. Primeiro separei as consultas das crianças dos demais. Depois, nas que sobraram, tentei reconhecer nas letras garranchudas que todo bom médico para apreciar fazer, aquelas que abordavam como sintomas, agitação demasiada, desinteresse constante, enfim, algo asssociado à hiperatividade. Encontrei 13 registros! Enrolei os papéis cuidadosamente e os trouxe comigo. Estou foleando eles agora. Treze crianças. Minha esperança pode estar em uma delas…”
CONTINUA…
