- 25 de Outubro de 1987 Anno Domini – 03h33:
Longos minutos que pareceram durar uma eternidade transcorreram desde aquela afirmação… fiquei no meu canto em pleno silêncio na sorte do menino não notar minha presença e pensar que eu fosse apenas a imaginação inquieta dele. Contudo, meu plano não surtiu o resultado esperado…
- Eu sei que tem alguém aí! – afirmou mais uma vez em um tom silencioso para não acordar as outras pessoas da casa.
Em seguida, ele sentou na ponta da cama, me encarando furtivamente. Imóvel, permaneci por mais alguns minutos com seus olhos sob a minha mira, até que insistência dele tornou inévitável, não havia mais como fazer de conta de que nada estava acontecendo:
- Oi – disse eu, meio sem jeito.
- Tu viu meu avô? – perguntou ele.
- Como?
- Meu avô! – repetiu. Tu viu ele?
- Não – respondi.
Visivelmente ele ficou triste com a minha resposta e depois disso, ficou mudo…. Então, para quebrar o silêncio, tentei me expressar de uma forma superficial já que o assunto era delicado:
- Ele foi embora?
- Ele morreu há duas semanas atrás – falou baixinho. Eu pensei ele tivesse mandado algum recado pra mim.
- Tu não conseguiu se despedir dele? – perguntei.
- Não… ele não morava aqui. Ele morava longe. O pai me buscou na escola e a gente tentou viajar rápido, mas quando eu cheguei lá, ele já tinha ido embora… Tu sabe pra onde ele foi? É da onde tu veio?
- Não sei, talvez sim – respondi, sem saber o quê falar. Para não continuar trilhando esta linha de perguntas e respostas das quais eu não saberia responder, decidi perguntar outra coisa:
- Tu gostava dele? Ele era legal?
- O Vô era muito legal! Ele brincava comigo quando eu ia visitar ele. Às vezes ele ficava sentado no sofá, fingindo que tava dormindo e quando eu chegava perto ele me dava susto… Ah! Ele também me levava no boteco perto da casa dele e me colocava sentado em cima das cadeiras altas e eu me sentia grande…. e depois me comprava uma coca-cola! Tá vendo o vidro ali?
Quando olhei na direção para onde ele estava apontando, enxerguei o reflexo distorcido do seu pequenino dedo atráves de um pote de vidro que estava repousando na estante.
- Estou vendo – disse.
- O Vô me deu ele e disse que eu tinha que levar toda vez ele vazio porque daí ele enchia pra mim de moedas… Ele falou pra mim que era pra mim colocar as moedas na poupança e esvaziar o pote porque ele tinha de estar vazio para que ele colocasse mais moedas da próxima vez…
Uma lágrima caiu em queda livre e se espatifou no carpete marrom. Imediatamente, outras vieram fazer companhia à sua irmã kamikaze e sofreram o mesmo destino.
- Eu não quero as moedas! – falou choramingando. Será que se eu devolver pra ele, ele volta? Tu devolve as moedas pra mim?
- Eu não posso voltar – falei. Se eu pudesse eu entregava sim – sem ter certeza de como eu deveria responder.
- Bom, um dia eu mesmo vou ter de entregar para ele então – disse ele entristecido. Mas a mãe disse que esse dia vai demorar… mas como ela sabe disso?
- Porque os pais sempre sabem das coisas.
- É mesmo – ele concordou. Mas eu tenho medo…
- Medo do quê? – indaguei.
- Medo que esqueçam de mim…
- Como assim?
- Quando eu morrer e todo mundo que me conhece também, seria como se eu nunca tivesse existido… então eu tenho medo que ninguém se lembre de mim – afirmou.
- Tu não devia estar pensando numa coisa dessas, tu é apenas uma criança – respondi, assustado pelo assunto e raciocínio incomuns para um menino.
- Eu me sinto sozinho – afirmou ele, desviando completamente o assunto.
- Mas por quê? Tu tem teus pais, amigos…
- Eu não tenho amigos – ele respondeu. Todos na escola ficam rindo de mim. Eu não faço nada pra eles, mas mesmo assim eles não param de me incomodar! Eu até ajudo meus colegas quando nós temos prova, tema de casa… daí eles ficam legais comigo mas depois eles esquecem…e voltam a me incomodar…
- Tu quer ser meu amigo? – perguntou para mim.
Aquilo me pegou de surpresa… fiquei em silêncio por algum tempo… sem saber o que dizer e muito menos falar o que eu vim fazer ali… mas num dado momento, as palavras começaram a sair aos tropeços:
- Eu vim hoje te ver… sabia?
- Ah é? – ele respondeu.
- Tu tem medo de mim?
- Um pouco… – ele disse de forma sincera, típico de uma criança.
- Mas não precisa tá? – tentei tranquilizá-lo.
- E por que tu está aqui? – indagou ele.
- Eu preciso de um favor – falei meio sem jeito. Eu preciso que tu me ajude. Eu não consigo mais ficar aqui por muito tempo, mas também não posso mais voltar para “casa”.
- Mas por quê?
- Porque eu estou fraco demais.
- Então por que tu saiu de casa?
- Porque eu não tive escolha – disse, sem nem ter como explicar uma situação dessas para um garoto de nove anos.
- Mas como eu posso te ajudar?
Escolhendo as palavras com muito cuidado, falei:
- Eu preciso ficar junto contigo por um tempo porque eu estou muito fraquinho para continuar sozinho e como eu disse eu não posso mais voltar para casa… eu vou estar sempre contigo durante este tempo, provavelmente tu não vai me ver, mas tu vai me ouvir sempre que tu quiser ou então quando eu quiser dizer algo para ti…
Ele interrompeu a minha conversa de repente dizendo:
- Se eu te ajudar, tu vai ser meu amigo?
- Vou sim.
- Tu não vai fazer que nem os meus colegas de escola, não é?
- Não vou, tu és um menino legal.
- Vai ser meu amigo pra sempre?
- Pra sempre - eu disse.
- Mas tu me promete uma coisa também? – perguntei.
- O que? – disse ele me olhando desconfiado.
- Tu promete tu não vai contar para ninguém sobre a gente? Nem para a mamãe e o papai?
- Tá bom, prometo. Mas o que eu tenho de fazer agora, então?
- Tenta dormir – eu disse. Pode deixar que eu cuido de tudo.
Ele voltou animado para seu travesseiro que estava do outro lado da cama. Cobri ele com o lençol até a altura da cintura. Ele olhou para mim pela última vez e com o primeiro sorriso da noite, disse:
- Boa noite, amigo!
Olhei para ele também e falei:
- Boa noite. Durma bem, meu amigo.
Ele fechou os olhos e ali eu permaneci em silêncio por um bom tempo até ele pegar no sono. Sem saber o que fazer em seguida, até porque não havia nenhum “manual de instruções” de como proceder com aquilo, apenas fiquei sentindo a energia que emanava daquele menino. Então resolvi encostar a minha mão no peito dele, na altura do coração e foi quando a transformação aconteceu. Minha estrutura começou a perder a forma e eu voltei para o estado gasoso, como uma névoa, mas ao mesmo tempo sendo sugado para o corpo do menino. A princípio me senti ainda mais fraco, mas depois as forças começaram a voltar graças à energia do menino. Cansado, também tentei dormir e quando eu consegui, meu sono foi embalado pelo ritmo calmo de um coração batendo…
CONTINUA…
Definição de Simbiose no Wikipédia: http://pt.wikipedia.org/wiki/Simbiose
Quase seis meses de sono é hibernação! Vamos atualizar esse conto ae!
Por: déia em Maio 28, 2009
às 5:43 pm
Hehehhehhehe…..Tens razão Déia!
Continuarei o conto em breve, ele já “descansou” o suficiente
Beijo e continue acompanhando o blog, por hora ele pode parecer mortinho, mas não está! Heheehhe
Por: Daniel em Maio 29, 2009
às 9:07 am