- 13 de Outubro de 1987 Anno Domini – 22h21:
“Estou triste. Sou refém de uma lista. A minha lista. Meu tempo é escasso e ela tornou-se a minha única esperança. A cada dia que passa estou mais fraco. Sinto perder as minhas energias… se esvaindo, e por isso, tenho que exercitar minha concentração para não perder meu foco em devaneios dos meus próprios pensamentos. Minha primeira investigação não foi bem sucedida. A primeira criança era uma garotinha de 6 anos, chamava-se Letícia. Ela ainda morava no mesmo lugar que estava descrito na sua ficha médica. Adentrei a casa dela depois da meia-noite, há 5 dias atrás. Uma sala de tamanho médio encontrava-se atrás da porta. Um urso grande me encarava, sempre vigilante, sentado providencialmente no sofá. Do lado do ‘guardião’, uma TV colorida adornada por um pano de crochê, e em cima dela, uma estátua de um boneco de aspecto engraçado. Era a prova que eu não me engara… havia uma criança na casa. Desloquei-me para um corridor comprido, porém estreito. Todas as portas do restante daquela casa pareciam dar naquele corredor. Com o cuidado devido, permitia rapidamente meu corpo invadir parcialmente cada aposento, até que encontrei o quarto que eu estava procurando. O quarto tinha uma janela com uma longa cortina rosa que batia até o chão. Ao lado dela, um armário, com várias bonequinhas de tamanhos variados estavam dispostas, cada uma dando as mãos à companheira adjacente. E mais encostado à parede que fazia divisa com o quarto de seus pais, estava a cama com um bidê, e nela, Letícia… Cheguei mais perto, bem devagar para contemplar aquela cena. Ela estava dormindo tranquilamente. Naquela hora uma pergunta invadiu a minha mente, uma que não foi respondida em nenhum momento pelo meu ‘mentor’ e tampouco mencionada na carta: como me unir a outro Ser? Talvez a resposta não fora dada de propósito, eu pensei, já que algo importante como aquilo não iria passar desapercebida pela Voz… talvez a intenção fosse que eu mesmo descobrisse. Porém, neste momento, recordei de um detalhe importante dito pela Voz, mais de uma vez: ‘Isso nunca foi tentado antes…’, ‘Isso é tão inédito para nós quanto é para ti…’. E se eles não responderam porque eles não sabiam como? Ou, além disso, e se não funcionasse justamente por não ser algo natural? Eu estava parado, atônito com aquela inquietação crescente que esquecera o que eu viera fazer naquele quarto. ‘Na hora saberei o que fazer, pronto!’, pensei. Cheguei mais perto dela, escutava sua respiração rápida. O meu desânimo apareceu quando constatei que eu não sentira nenhuma energia fora do normal, nenhum excesso emanando dela. Faltava o principal… Olhei para bidê ao lado. Haviam alguns frascos perto do abajur. Ela estava sendo medicada. Chegara tarde demais. Se alguma vez ela sofreu de hiperativismo, podia dizer que ela estava curada… Olhei mais uma vez para a doce Letícia enquanto uma tristeza tomava uma conta de mim. Não seria ela que faria eu participar deste mundo novamente…”
- 16 de Outubro de 1987 Anno Domini – 04h03:
“Sinto-me frustrado… A minha lista provou até agora ser um meio ineficaz para eu alcançar minha meta. Não que ela estivesse totalmente incorreta. Não posso culpá-la. Condená-la seria condenar a mim mesmo e eu preciso tanto dela! Ontem visitei a quinta criança. Era um menino. Como sempre, procurei a casa já tarde da noite em uma rua extensa. Depois de atravessar 12 quadras, sempre com cautela para ninguém notar a minha presença, encontrei-a sob o número 2328. Nela morava Cristiano, uma criança de 8 anos. Era uma casa grande, de dois andares. Atravessei a porta de entrada que dava para a grande sala de estar com grande lustre de cristal pendurado no teto. Abaixo dele, uma mesa de vidro enorme praticamente tomava conta da metade do espaço da sala. Do outro lado, dois conjuntos de sofá de dois e três lugares de couro branco chamavam atenção especial junto à uma mesinha de centro aonde havia vários anjinhos de mármore e com cada deles segurando um instrumento musical, incrivelmente bem trabalhados, entalhados com precisão. Como os quartos ficavam no andar superior, subi uma grande escada espiral feita de carvalho envernizado. Havia barulho em um dos quartos. Cheguei mais perto da porta e ouvi uma mescla de sons de TV com pessoas falando. Portanto o quarto a seguir deveria ser de Cristiano. Nele não havia nenhum som aparente. Atravessei a porta e naquele quarto grande todo decorado por posters de um militar com uma cara de brabo e vários bonequinhos semelhantes dentro de jipes e tanques de guerra espalhados pelo chão que eu vi o rosto de Cristiano virado para mim com olhos fechados, dormindo em sua cama. Cheguei mais perto para sentir se eu sentia algo de anormal nele, algum traço daquela energia que possibilitaria meu retorno. O resultado foi negativo. Me afastei já para a ir embora quando um barulho emergiu do quarto do lado. Xingões de parte a parte saíram daquele quarto e, em seguida, o som de um vaso se espatifando na parede corredor. Nisso, acho uma fresta entre o guarda-roupa a parede e me enfio nele. Foi o tempo exato para que Cristiano, assustado, pulasse da cama, tremendo, como se soubesse o que iria acontecer. Escutou-se o som de passos apressados na escada e o som forte de uma porta fechando. Cristiano voltou novamente para a cama e com as duas mãozinhas juntas pediu em voz alta que a mãe não entrasse no quarto. Mas suas preces não foram atendidas. Momentos depois, a porta foi aberta com violência. A mãe foi exatamente na direção de Cristiano e o agarrou com força pelo braço. O menino chorava, tremendo, enquanto a mãe ensandecida falava: ‘Se teu pai me abandonar, a culpa é tua!…. Ele sempre fala que sou eu que sou uma péssima influência… mas tu sabe de quem é a culpa aqui né? Se quando teu pai voltar para casa tu não te desculpar pela má criança que tu és e falar que tu vai ficar muito triste se ele deixar a gente… se tu não fizer isso, aí tu vai ver o que te acontece!’ Eu queria sair daquele lugar e proteger a criança daquilo. Porém, minha razão me convenceu de que sair naquele momento com certeza iria chocar uma criança já aterrorizada pela própria mãe megera… era tudo o que ele não precisava. Então, passivamente, contentei-me à observar aquela cena. A mãe fechara a porta com igual violência que adentrara a mesma. A criança, visivelmente abalada, encolheu-se num cantinho da cama e balançando o corpo para frente e para trás ficou naquela posição com os olhos vazios olhando para o nada. Apenas duas horas depois, ela se rendeu ao sono, adormecendo na mesma posição. Saí da onde eu estava escondido, profundamente entristecido pelo o que acontecera ao Cristiano e, mesmo com chance de ser descoberto, embora achasse improvável naquele momento, coloquei-o na posição horizontal e cobri ele com um cobertor. Percebi que a lista não se enganara naquele caso. Os sintomas estavam certos. Aquele menino com certeza deveria sofrer de uma agitação intensa, mas pela causa errada. Ele não era hiperativo e sim sofria abuso por parte da mãe.”
- 25 de Outubro de 1987 Anno Domini – 01h15:
“Estou muito fraco para continuar a busca. Juro que não é falta de vontade. Mas o prazo está acabando… e além do mais, é a última criança. Todas as outras, ou possuíam outro endereço ou possuíam sintomas de hiperativismo mas não eram realmente, sofriam por outros fatores ou ainda, haviam aquelas já haviam sido medicadas. Este é o último. É um menino de 9 anos. Neste momento estou escondido em seu quarto, entre o guarda-roupa e a porta entreaberta, enquanto sua mãe pede para ele vá até o banheiro escovar os dentes. Pronto, ele está voltando. Vou esperar ele adormecer para averiguar se ele pode me ajudar…”
- 25 de Outubro de 1987 Anno Domini – 03h29:
“Esta criança simplesmente não dorme! E não pára de se mexer em sua cama. Mesmo daqui percebo que uma energia muito grande vem de dentro dele. Percebo mais uma coisa. Percebo que ele está triste. Ele está chorando… Penso que aparecer para ele neste momento faria ele levar um grande susto. Talvez seja melhor eu deixar de existir. Se eu estou aqui hoje nestas condições, será que eu mereço realmente uma chance? É algo que uma criança, ainda mais triste, não deveria decidir. É melhor que eu decida por mim mesmo. Parece que não vou para Elysium afinal. Vou embora! Eu não pertenço a lugar nenhum…
- Oi! – fala o menino – Não vá embora!”
CONTINUA…