Estava escuro. Acordei. E estava tudo escuro. Me sentia sufocado. Era uma sensação estranha. Conforme minha visão foi se habituando ao lugar, percebi que havia uma névoa densa ao meu redor, pois sentia como se o ar estivesse pesado. Tentei me mover, mas de repente me vi sem condições de caminhar. No intuito de vislumbrar aonde eu estava, tentei tatear com as mãos. Mas não havia mãos. Veio o pânico. Não havia mãos, assim como não havia corpo! Eu era a própria névoa! Onde eu estava!? Quem era eu!? O que era eu!?
Era um sonho.
Só podia ser.
Tinha que ser!
Aonde está todo mundo? Minha família? Minha vida! Completamente atordoado, um turbilhão de pensamentos invadia minha mente. Tentei me desvencilhar daquele lugar, mas foi em vão. Estava preso dentro de um cubo, onde o ébano era a única cor presente. Parecia não haver dimensões exatas, sua extensão era interminável. Ao mesmo tempo sentia algo espreitando minha aflição. Havia mais alguém ali. Olhando. Analisando. Sentindo. Empreguei todas as minhas forças para sair daquele lugar. Mas aos poucos, fui notando uma sensação de dormência se apossando de mim. Então, profundamente, adormeci…
Regressei à minha consciência despertado por uma voz que vinha ao longe. Não era uma voz conhecida. Inicialmente parecia uma série desconexa de palavras presas num único chiado. Mas a voz foi ficando cada vez clara. Percebi que de forma intermitente chamava pelo meu nome. Acordei no mesmo lugar de antes. Então não era um sonho…
De repente ela disse:
- Agora que suas forças se exauriram, acho que podemos conversar.
- Onde eu estou?
- Em um lugar neutro, propício para uma situação dessas.
- Que situação? – perguntei.
- Seu caso é realmente particular, devo admitir – respondeu a voz. Fiquei lisonjeado em ser escolhido para ter essa conversa contigo. Sua Existência foi interrompida precocemente.
- Eu morri? – perguntei.
- Se prefere utilizar esse termo… mas não diria propriamente morto. Apenas você não vai entender, nem que eu quisesse realmente te explicar.
- O que eu posso te dizer neste momento é que você não é digno de entrar em Elysium – continuou a voz. Mas também não é digno de entrar no Submundo Inferior. Os Juízes não souberam o que decidir sobre o seu destino. Então como havia uma indefinição, interpelei à eles para uma providência mais imparcial possível.
- O que Elysium? – indaguei.
- É o que sua crença acredita ser o Paraíso.
- Quem é você?
- Te direi quem sou eu, se um dia tua jornada te guiar para Elysium. O que tu precisas saber agora é que lhe foi concedido o benefício da dúvida. Assim como sua Existência foi usurpada, Ela será parcialmente restituída.
- Como assim parcialmente?
- Tu viverás a vida no plano que você conhece, mas não será mais você. Tu dividirás tua vida com outra Presença. Sua conduta será avaliada constantemente. Quando tu entenderes a Verdade e o Signficado sobre a Vida, tua missão terminará.
- Mas como assim? Por que isto está acontecendo comigo!? – redargui com indignação.
- Simplesmente porque seu comportamento em si é uma anomalia – a voz replicou. É o que chamamos de Ciclo da Incerteza. É um caso raro. Isto ocorre quando suas ações boas e más se anulam de tal modo que não há uma sentença para o seu caso. No final de cada Existência, para o Bem ou o Mal, o julgado compreende a razão e o significado da Vida. Quando ocorre o Ciclo da Incerteza, o julgado não consegue conceber a própria razão de sua Existência. Este processo pode se repetir indefinidamente por todas as tuas existências, a atual, as passadas e, possivelmente, futuras.
- Passadas? Futuras?
- Como eu disse, é uma situação atípica. Geralmente os Juízes chegam a um consenso sobre o destino de cada Existência. Todas as ações realizadas no seu plano apontam claramente para uma definição aonde tu deves ficar eternamente, mas no teu caso foi diferente. Não é a primeira vez que isto acontece contigo. Já aconteceu outras vezes, mas você não se lembra. É assim mesmo. Enquanto tu não romperes este ciclo, não poderá haver descanso. Nas poucas vezes que este fenômeno aconteceu com outros seres, estes voltaram à vida, em um novo aprendizado e assim se desprendiam deste ciclo. Mas contigo isto já aconteceu infindáveis vezes sem sucesso e não sabemos o porquê. Então desta vez, tu viverás tua vida em uma perpectiva diferente. Tu decidirás juntamente com outra Entidade o destino de vocês dois. Percebas que há uma grande responsabilidade que recairá sobre você, pois tu vais contribuir para o julgamento da outra entidade também. Bom, agora tu precisas descansar e recuperar as tuas forças. Quando chegar a hora lhe direi mais detalhes. Aqui me despeço…
- Não! Por favor não vá embora! – relutei.
A voz foi ganhando distância e a mesma sensação de esgotamento surgiu. Cansado, tudo foi ficando novamente inerte e as últimas palavras que balbuciei foram “Por que eu…” e subitamente todos os pensamentos silenciaram…
CONTINUA…
Definição de Elysium no Wikipédia:
http://en.wikipedia.org/wiki/Elysium (Inglês)
http://pt.wikipedia.org/wiki/Campos_El%C3%ADsios (Português)