Não sei ao certo quando comecei a tecer estes comentários, pois quando se vive por tanto tempo, este deixa de ser uma variável importante. Não espero que alguém encontre e leia isso, mas a solidão faz com que tenhamos a necessidade de transmitir o que vimos e sentimos, de tal forma que enquanto rabisco estas palavras, sinto como se meus lábios produzissem sons que pudessem chegar aos ouvidos de quem me compreenda.
Desde que abracei a escuridão, séculos eclodiram através das eras, assisti e testemunhei muitas coisas. Impérios elevariam seus mastros aos céus. Impérios jaziriam em cinzas. Épocas de sabedoria. Épocas de ignorância. Degustei fatos por vezes vivendo nos bastidores, entre as sombras, e em raras vezes participando ativamente no curso da História…
Como um observador da humanidade, experienciei tudo aquilo que ela é capaz de produzir, pela habilidade/inabilidade que ela tem de compreender aquilo que vos une e aquilo que vos destrói. Outrora vi guerras, fome, doença, miséria, mas principalmente o desrespeito pela vida de seus semelhantes, em muitas circunstâncias pelo egoísmo em achar que suas vidas valiam mais do que as demais. Até eu que não temo nem a vida, nem a morte, já que transito entre os dois planos, aprecio e valorizo a vida de cada ser, sinto a beleza em cada coisa viva. Por outro lado, fui surpreendido pelos sentimentos de esperança, gentileza, doação e sacrifício em momentos difíceis e perturbadores. É incrível como os homens se unem na dor. Quando todos se enxergam como iguais, estendem suas mãos, a verdadeira força que justifica a sobrevivência de sua espécie aparece. De fato, isto é muito interessante…
Embora minha imortalidade tenha advindo de uma maneira semelhante aos meus co-irmãos, sempre me senti diferentes deles. Muitos traços de humanidade habitam em mim e talvez dada essa hibridez de sentimentos, eu tenha conseguido viver entre os humanos durante tanto tempo. Por mais que eu seja diferente dos seres terrenos, me acostumei à convivência deles. A similaridade de sensações, a troca de idéias em alguns momentos me fizeram esquecer o que eu realmente era.
Troquei meu nome por incontáveis vezes, exerci vários ofícios, almejando em cada fase viver algo diferente que não me expusesse ao tédio. Apenas um sentimento tentei não experimentar com medo de suas implicações: o amor. Não que eu não tivesse conhecido e me relacionado com mulheres. Muitas vezes era necessário em vista das aparências que a sociedade impunha. Outras pela agradável companhia, sua gentileza, sua dedicação. Guardo com afeição o nome e a memória de todas elas. Mas sempre com uma respeitosa distância da qual eu mantinha minha sobriedade, minha razão.
Pensei em poder controlar este fator. Estava enganado. Aconteceu de uma maneira inusitada. Era uma noite como tantas, sob a tutela da grande esfera que reflete a luz do sol. Estava me esgueirando entre as árvores. Era outono. As folhas esparamadas sobre o chão faziam o caminhar produzir sons audíveis por várias quadras. Eram 23h38 de uma quarta-feira quando a vi cruzando uma esquina. Algo estranho aconteceu comigo. Algo inexplicável. Nesse corpo sem vida, senti como se algo estivesse pulsando. Uma sensação de calor foi tomando conta de mim, sensação essa apenas sentida na minha ante-vida, há muito tempo esquecida. Tentei me controlar mas não me contive e a segui até sua casa em uma distância discreta, mas segura. Era o sentimento que eu tanto temia… acontecera!
Durante as semanas seguintes a segui sempre do mesmo ponto, o mesmo trajeto, o mesmo percurso. Ousei mais. A conheci pessoalmente numa noite depois que eu soubera que ela frequentava uma universidade, na esperança que a conhecendo, algo nela iria me fazer a dissuadir do sentimento que eu estava vivenciando. Mais uma vez um equívoco. Ao descobrir seus encantos, fiquei ainda mais preso às minhas sensações. Eu a amava. E justamente por amá-la não poderia lhe propor o mesmo caminho que eu segui. Queria que ela tivesse uma vida, finita, mas plena. Quando me refiro plena, significa casamento, família, filhos, coisas tais que eu não poderia ofertar. Então, platonicamente, me dispus a apenas observá-la em sua trajetória, sabendo que sua felicidade seria a minha também.
Entretanto, uma noite, a esperei no local habitual, mas ela não apareceu. Cinco segundos depois ouvi silvos transmitidos através do vento. Fui em direção ao barulho mais rápido que eu pude com um mau pressentimento. Três ruas adiante, deitada no meio da rua, estava ela. Havia sangue no chão, duas cápsulas de projéteis de uma arma de fogo descansavam ao seu lado. Ela estava pálida. Passei minha mão pelo seu rosto. Estava gelado. Ela morrera…
Foi como se as trevas caíssem sobre mim… fiquei atordoado.
Fui embora, apenas guiado pelos meus instintos, pois já não enxergava mais nada. Imagens dela era as únicas visões que passavam na minha mente. Eu, que tinha a capacidade de conceder a imortalidade, decidi poupá-la para ter uma vida normal. Eu a deixei partir por uma morte estúpida. Eu a amava. Eu escolhi certo? Eu escolhi errado?
O tempo agora me parece mais infinito do que antes, como se isso fosse possível. Não sinto prazer em nada. Mesmo em meu repouso essas mesmas perguntas me perseguem o tempo todo. Toda pergunta começa com as inevitáveis palavras: “E se…?”. Não encontro uma resposta! O tempo que sempre contei como um aliado agora me tortura com essas perguntas. Penso que nunca encontrarei uma resposta. Todo final de noite, perto do alvorecer quando fecho os olhos dentro do esquife fico imaginando se algum dia a branca luz solar irá me libertar deste martírio…”
Achei lindo o que escreveu independentemente de ser ficção,mas pareceu muito real,vivo,como se cada palavra fosse escrita com o coração,não me considero romântica ou sensível,aliás sou o contrário disso,mas seu relato foi bastante profundo, vivo em sites de vampiros principalmente quando não consigo dormir,porém em todos só encontro brincadeiras,loucuras e absurdos.
Mas seu relato pareceu realmente de alguém solitário,humano ou imortal que carrega em si uma dor profunda e uma solidão que chega a doer a quem ler,espero que não se sinta realmente com um fardo tão duro como a ausência de um amor perdido,por que sei que isso dói,mas parabéns pelo relato é profundo,prende a quem ler e é comovente,uma narrativa excelente !
Boa noite principe das sombras!
Por: lótus em Abril 19, 2009
às 7:34 am