Como num flash, quase nem um segundo passara desde minha estada naquela sala de espera, mas agora eu estava em um lugar completamente diferente. Era um campo aberto. Uma planície. O chão era semi-árido, havia uma espécie de vegetação rasteira que tentava cobrir a terra seca cor argila. A sensação de caminhar era surpreendemente agradável. Caminhei alguns passos e pude vislumbrar aquilo que mais me chamou a atenção desde que adentrei naquele lugar: um rio. O que me espantava de certa forma, eram suas cores. A cor da água, ou pelo menos aquilo que supostamente era água, era constituída de matizes que intercalavam do dourado até o púrpura, como a superfície reflexiva de uma jóia de cristal fruta-cor. Não contive minha curiosidade e dei mais alguns passos em direção ao rio. Quando estava a uns 50 metros, surgiram as primeiras lágrimas em meus olhos. A princípio poucas gotas formavam-se no canto dos olhos, mas depois de alguns minutos, era visível meu rosto tomado por muitas lágrimas, assomado a uma tristeza profunda. Olhei para o chão, destino do meu pranto, e notei que ali a vegetação era muito mais densa do que das áreas longe da borda do rio. Pensei rapidamente o porquê disto tudo, quando a costumeira Voz invadiu meu raciocínio e adiantou a resposta:
- A vegetação é alimentada pelas lágrimas de quem passa por aqui.
- Por que estou chorando? - perguntei, confuso.
- Este é o efeito de quem se aproxima do Rio do Esquecimento - explicou a voz. Todos que tem respeito pelas suas próprias memórias sentem o pesar por deixá-las no rio. Este é o destino de quem entra no Rio do Esquecimento.
- Mas eu não quero entrar aí! - respondi.
- É preciso. Tranquilize-se. Como estamos tentando algo inédito para que você se liberte do Ciclo da Incerteza, não o deixaremos exposto demasiado tempo para que o rio tenha total controle sobre você. É preciso que tu entendas o motivo e, principalmente, aceite entrar nele. Pois o rio só cumpre sua tarefa quando o indivíduo se submete por vontade própria - sentenciou a Voz.
- Então explique-me.
- Pois bem, queremos que tu retorne ao seu plano, com a consciência de quem tu és, mas acima de tudo, de qual será sua misssão. Queremos preservar tua sabedoria, contudo, é necessário que tu esqueças fatos, nomes, qualquer coisa que forme um vínculo com a sua Existência passada. Ouça com atenção o que eu quero que tu faças…
- Estou prestando atenção, pode falar - disse.
- Quero que tu entre no Rio do Esquecimento e vá mais ou menos até a metade. Quando chegar neste ponto, pare por um instante e com as mãos em forma de concha, encha-as com a água e beba-a. Em seguida volte para cá. Compreendeu?
- Sim … - respondi.
- Quando tu te sentires preparado, podes ir - afirmou a Voz. Ficarei te esperando o tempo que for necessário.
Demorou um pouco eu tomar alguma atitude a respeito. A simples idéia de esquecer o que até então era a minha vida, era aterradora demais pra mim. Não que minha ela tenha sido fantástica, muito pelo contrário. Mas as lembranças são um bem que a gente não espera perder, sejam elas quais forem, pois foram elas que me identificaram como pessoa. Minha tristeza foi aumentando e, ao mesmo passo, minhas lágrimas. Até que uma hora, decidido a abraçar algo novo, meu novo Eu, e deixar tudo para trás, dei meus primeiros passos em direção à margem do rio. Os efeitos do rio sobre mim aumentaram e agora chorava sem parar, quando meus pés tocaram a água. Sabendo que era um caminho sem volta, continuei. Senti algo me drenando. Determinado, prossegui. Olhei através da água e vi vários fios luminosos saindo de mim. O Rio do Esquecimento as estava tirando de mim. Eram minhas lembranças…
Meus poucos amigos…
Alguns familiares que se importavam comigo…
Minha casa…
Meu primeiro apartamento…
Minha formatura da faculdade…
Minha primeira namorada…
Minha primeira transa…
Cheguei no centro do rio. Conforme a Voz sugeriu, parei por alguns instantes. Em seguida, fechei as minhas mãos e coletei um pouco da água do rio. Bebi. Senti uma grande sensação de vazio enraizando de dentro de mim. Dei meia volta e pus-me a voltar para a margem. E minhas memórias continuavam se despedindo de mim…
Meu primeiro beijo…
Meu tempo de escola…
As brincadeiras quando criança…
A foto da turma do jardim…
Minha infância…
Meus pais…
Finalmente, sai do rio. Agora não me sentia mais triste. Talvez porque não houvessem mais motivos, sem ter mais lembranças do que lamentar. Não sabia se a Voz ainda estava esperando por mim. De qualquer forma, disse:
- Pelo menos não esqueci do meu nome. Meu nome é…
Eu não lembrava do meu nome.
CONTINUA…